segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Campanha polemiza ao associar camisinha à hóstia



Uma campanha do governo espanhol para incentivar o uso de preservativos vem causando polêmica ao relacionar a imagem de uma camisinha com a de uma hóstia. Divulgada em cartazes, vídeos e outdoors, peça publicitária repete uma foto de um sacerdote segurando primeiro uma hóstia, depois um preservativo.  

A iniciativa, do setor jovem do partido socialista que governa o país, foi lançada durante a primeira semana de dezembro, de luta contra a Aids. "Bendita camisinha que tira a Aids do mundo" é o título oficial da ação. O porta-voz das Juventudes Socialistas, Juan Carlos Ruiz, explicou que "a Igreja insiste em confundir os cidadãos" e "que a campanha pretende apenas reafirmar o compromisso da luta contra a Aids".

Entidades religiosas consideraram a campanha uma "blasfêmia". O cardeal dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, foi mais enfático: "Estamos diante de um lamentável desrespeito à fé dos católicos na Santíssima Eucaristia." Rafael Lozano, porta-voz do grupo católico Forum da Família, considerou a peça publicitária "uma grande ofensa aos sentimentos religiosos de quem professa essa fé".

A propaganda contraria as recomendações do Vaticano, que não aprova o uso de camisinhas, apesar de uma maior abertura do papa Bento XVI anunciada recentemente. O chefe da Igreja Católica liberou o uso da camisinha apenas entre aqueles que fazem da prostituição seu meio de ganhar a vida.

Segundo o vídeo, "a Igreja nos diz que os preservativos, em vez de combater a doença, ajudam a expandi-la". O anúncio cita que mais de 25 milhões de pessoas já morreram vítimas da doença até 2009 em todo o mundo. A iniciativa confronta as orientações da Igreja Católica ao fazer a pergunta: "São esses realmente os que dizem que nos amam? Que não te enganem", prossegue o áudio da peça publicitária.

Fontes: Portais G1 e Terra


sábado, 27 de novembro de 2010

Jules e Jim

Cena do filme Jules et Jim, de François Truffaut (1962)

Stella Galvão

Nunca nem reparou no rapaz antes. Foi em uma noite cálida regada a cigarro, cerveja e comidinhas exóticas que ela percebeu a existência do moço. Exatamente porque ele se tornara objeto de desejo de uma mulher libertária, dessas que tocam a vida com destemor, sem dar muita bola para convenções, valores inamovíveis e outras quinquilharias mais. Essa coisa de desejar a coisa desejada pelo outro. Outra, no caso. Ele nem tinha perfil apolíneo, era mesmo um tipo comum, com um ar meio abusado e soturno, sem grandes atrativos físicos. Mas havia um quê, sim. E naquela noite ela percebeu mais nitidamente.

Pouco tempo depois, a namorada toda solta contou que o moço nutria certo tesão por ela, aquela que lhe era antes indiferente. Daí para a troca de olhares alongados, para a sensação da presença do outro em qualquer ambiente, foi um salto. A girfriend sabia, claro, se ela própria tendo criado o terreno fantasioso para afogar a dupla que se observava gulosamente. Sugeria até mesmo uma certa condescendência com a possibilidade do triângulo amoroso se formar, algo que desagradava a candidata a amante. Ela se via namorando o gajo, não a gaja.

Estava mais, na verdade, para um triângulo como o exibido magistralmente pelo cineasta francês François Truffaut em Uma mulher para dois (Jules et Jim, França, 1962). O filme, marcado por um olhar delicado e denso sobre as coisas do amor, traz um menage a trois muito simpático. Na Paris do início do século 20, os amigos Jules, um alemão ingênuo, e Jim, um francês sofisticado, se apaixonam pela mesma mulher, Catherine.

Ela ama Jules, com quem se casa. Depois da Primeira Guerra Mundial, quando o trio se reencontra na Alemanha, Catherine se apaixona por Jim. O filme mostra como esse triângulo de amor e amizade evolui ao longo dos anos. Catherine manipula os dois e cria um clima de tensão na relação. É um erotismo sutil mas que extravasa na tela, por meio da pulsão do desejo que os mobiliza. Os três acabam vivendo durante algum tempo na mesma casa, num relacionamento a três chocante para o público do começo da década de 1960, quando a liberalidade sexual ainda engatinhava. Um filme indispensável para quem aprecia boas histórias capturadas pela câmera de um diretor fundamental na história do cinema.

Mas, no caso do triângulo citado no começo deste texto, que se passa no final da primeira década do século 21, o problema residia justamente na impossibilidade de introduzir alguma leveza e humor à história. Parecia mais um roteiro marcado por uma certa obsessão e transferência, não exatamente de desejo. E ela desejada ser disputada, quase desmembrada, por dois guapos rapazes. A presença de outra mulher não a enojava, mas tampouco a enchia de vontade de desbravar a seara daquele agora lindo, sofisticado e ingênuo rapaz.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Apelo ao orgasmo para atrair eleitores

Stella Galvão*

Será que o brasileiro típico de classe média, conservador em matéria de sexualidade, se deixaria tocar pela campanha eleitoral cujo slogan é 'Votar é um prazer'? A ideia inusitada, e original, está sendo disseminada pelo Partido Socialista Catalão (Catalunha, região da Espanha), que aposta as fichas na reeleição de José Montilla à presidência do governo autônomo catalão.


No vídeo, lançado pela Juventude Socialista da Catalunha, o ato de votar se assemelha ao orgasmo, que é simulado durante todo o processo de votação, da conferência dos dados junto aos mesários ao depósito do voto na urna. O vídeo se encerra com a mulher exibindo uma aparência satisfeita, e a frase “Votar é um prazer”. O humor é garantido pela expressão de surpresa e espanto dos mesários diante do evidente estado alterado da eleitora.

A campanha, como seria de se esperar quando o assunto envolve sexualidade, causou polêmica na Espanha. Alicia Sánchez-Camacho, candidata da oposição conservadora, o Partido Popular da Catalunha, disse que o vídeo fere a dignidade das mulheres. A ministra da Igualdade, socialista Bibiana Aido, classificou a propaganda de "enganosa", numa interpretação que beira o ridículo. Bibiana alegou se o orgasmo não tivesse sido encenado, as urnas gritariam de eleitores. “Se fosse verdadeira, a participação eleitoral aumentaria muito, mas acho que estamos lidando com uma propaganda enganosa", afirmou.

José Montilla, potencial beneficiado com a onda orgásmica atrelada à eleição, reagiu com bom humor ao vídeo. “Se encoraja as pessoas a votar, é uma coisa boa.” O líder da coalizão Verde da Catalunha, Joan Herrera, preferiu pecar por sinceridade. Disse que seria “muito difícil chegar ao orgasmo votando por qualquer um dos candidatos, eu incluído”. As urnas serão abertas no dia 28 de novembro. Até lá, a Catalunha estará nos noticiários ao redor do mundo por obra da criativa peça de marketing dos socialistas.

A Catalunha, região autônoma a nordeste da Espanha, é mundialmente conhecida por ter legado arte de primeira à humanidade. Lá nasceram, por exemplo, Salvador Dalí e Joan Miró, dois grandes nomes do Surrealismo, movimento que deslocou o fantástico universo dos sonhos para as artes plásticas. A capital é Barcelona, o destino turístico mais visitado da Espanha. Lá se encontram também as monumentais igrejas projetadas pelo arquiteto Antonio Gaudí.

* Com informações da BBC.